quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Aurora da vida

14:46. Um calor descomunal! Tudo bem. O inverno está acabando, mas está muito quente hoje! E eu com uma blusinha 3/4. Fina, mas não é como uma regata...

Entro no ônibus. Praticamente vazio. De repente, um senhor senta perto do meu banco. Como sempre, eu estou lendo: um pequeno caderno de exercícios do ENEM.
O senhor fala comigo:

- Papel reciclável né? (Aponta para a apostila)
Eu, tímida como sou; educada como sempre, respondo:

- Ah, sim!

No espaço de tempo que me virei para falar com ele, mirei-o. Observei que ele tinha os cabelos bem branquinhos, lisos. Usava uma boina num tom de cinza e o casaco e a calça em tons de marrom. Usava, também, óculos grandes e engraçados, aqueles que escurecem de acordo com a luminosidade, porém, de grau.

Voltei minha cabeça para o caderno. Mas não lia nada. Apenas processava a imagem bondosa que acabara de ver. Lembrei meu avõ materno. Era negro...Lembrei meu avô paterno, o qual nunca conheci, apenas por fotos... Bateu uma saudade de momentos que nunca vivi: a netinha no colo do vovô, que depois do papai, seria o homem mais importante do mundo!

O pai do pai faleceu 30 anos antes de eu nascer. O pai da mãe conviveu pouco conosco, porque já tinha os netos de sua segunda mulher... E faleceu há 6 anos. É estranho recordar coisas pelas quais não passamos...Dejà vu...Talvez. Ou influência de comerciais tipo margarina.

Quando consegui concentrar-me novamente na leitura, o velhinho comenta:

- Já vi guardanapo de papel reciclável. Tão ruim de usar! Não há melhor do que este (com a mão, faz o movimento de limpar a boca). Esse guardanapo é nosso!
- Pois é!
- É um costume que a gente pega desde criança. Ah! Dá pra usar a manga também (repete o gesto, usando a manga do casaco)
- (Risada envergonhada)
- Já que é a mãe que lava mesmo, né?!
- Isso é verdade...

"Grrrr. Tem vezes que me odeio! Não conseguia dizer nenhuma frase com mais de três palavras. Nessas horas me sinto um bichinho do mato! E eu faço teatro...Não é possível que eu não consiga desenvolver um diálogo...As pessoas devem me achar tonguinha, bobinha, sei lá."

Foi isso que pensei, naquela hora, depois que ouvi o eco da última palavra da conversa: verdade...verdade...erdade...rdade....dade...ade...e...e...
Vergonhoso! Falei pra mim mesma: se o vô puxar papo de novo, responderei como gente! Depois de alguns segundos...

- Você consegue ler assim, no ônibus, com barulho de buzina, carros, pessoas conversando?
- Sim! Eu já estou acostumada. Faço isso direto. Nada me atrapalha mais!

(Aê!!)

- Pois é. eu não consigo, não. Preciso de silêncio e tranquilidade pra ler. Mas o que é que você estuda, aí?
-São questões do ENEM - Exame Nacional do Ensino Médio. - (Ele se aproxima pra me ouvir melhor). Eu vou fazer, é domingo, agora.
- Olha só! Que legal...Boa sorte pra você viu?
- Obrigada! Tirando alguns dias que eu estou com sono, aproveito para ler no ônibus.
- É. Quando bate o sono, fica difícil mesmo. Eu tenho sono quando vejo TV. O programa tem que ser muito bom pra eu não dormir. Ah...Mas vou ter que descer no próximo ponto...Desejo boa sorte na prova, de novo. To torcendo por você, viu?
- Muito obrigada. Boa tarde pro senhor.

E sinto, mais uma vez, que perco um avô!

Apesar disso, guardo o "boa sorte". Usarei ele nos momentos que eu me sentir desanimada, pois saberei que há alguém torcendo por mim. Por mais que esse alguém nem se lembre mais de mim.

Incrível como alguém que vemos uma vez só pode fazer tamanha diferença no nosso dia. Na nossa semana. Na nossa vida, quem sabe?

Desço do ônibus. E retomo a caminhada ruma à minha vida de estudante.
Ah, caloooor...

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http://www.youtube.com/watch?v=YnbBVWDtYm0

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