terça-feira, 16 de setembro de 2008

Delírio amoroso

Um sol frio cobria a cidade. Finalmente um pouco de luz depois de tantos dias escuros e gelados. Ela caminhava a passos largos, na pressa dos seus pensamentos. Estava triste. Na verdade, não sabia se sentia-se verdadeiramente triste ou não. Talvez um pouco apática.

Ela não deveria estar mal por causa daquilo, apenas, um fato tão insignificante!

Sente vontade de seguir aquele homem de terno. Vontade louca e bizarra. Ela o faz. Segue-o passo a passo. Quem sabe descobrisse onde mora, aonde ia, o nome, a idade, o jeito de falar, de olhar, de sorrir. Se era feliz, infeliz, a cor preferida, a comida que mais lhe agrada. O cheiro!

Como pode isso? Desejo de resgatar o coração de um certo alguém, cuidar dele, beijá-lo e preocupar-se com ele. Ímpeto de doar seu coração. Só. Apenas. Somente o coração. A alma dele seria dele e a dela, dela. Alma é algo muito individual. Misterioso e delicado. Caso ela conseguisse a alma dele, seria duas. Duas pessoas, porque teria duas auras. E isso é completamente inadmissível. É necessário separar. É preciso manter certas obscuridades. Segredos não foram feitos para serem contados, espalhados. Ela sabia disso.

Tanto sabia que passou ela a ser o objeto de perseguição. Já havia passado a posição do de terno, quando atravessara a rua. Sentia a sombra dele. teve medo de ter seus segredos revelados por alguém tão alto. Ela refletia de tal maneira que ficava com a impressão de que tudo que passava pela sua mente estava sendo escrito, simultâneamente, na própria testa. Parecia que os transeuntes poderiam ler sua intimidade. Pânico!

Perdeu-se da vista do homem. Perdeu-o de vista. Voltou à realidade e o vento fresco ameaçava seus cabelos. Lembrou-se da tristeza, a possível tristeza. Olhou pro céu azul-claro, olhou pras árvores, olhou pra rua...Quis que fossem seus brinquedos. Daria uma grande festa naquela praça.

A esperança batia na porta de um neurônio. Abriu-se mais um canal de sódio. Quem sabe ela ainda encontrasse, tivesse a surpresa de.

"Rua São Francisco", lê-se na placa. Santos, anjos, deuses. Ah, Santo Antônio!

Actres, 16/09/2008


Que comentários tecer? Primeiro, é um texto de sentimentos completamente individuais. Pode ser tudo meio estranho, mas eu curto escrever assim. A tal escrita automática do fluxo da consciência. Adoro a antítese da primeira frase. Como um sol pode ser frio? É...no meu mundo pode, nas minhas angústias, ânsias, medos, alegrias, esperanças. E de verdade senti o sol frio nesse dia.

Ah, preguiça de escolher vídeo.
Próximo post vem com dois. ;D

Nenhum comentário: